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Ex-chefe das secretas e presidente da Ongoing suspeitos de corrupção

Ex-chefe das secretas e presidente da Ongoing suspeitos de corrupção

Jorge Silva Carvalho e Nuno Vasconcellos constituídos arguidos. Ministério Público considera a contratação do ex-director do SIED como contrapartida pelo alegado fornecimento de informação secreta

Com a investigação ao chamado “caso das secretas” a entrar na reta final, o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa decidiu constituir como arguidos Jorge Silva Carvalho e Nuno Vasconcellos. Sobre ambos recaem suspeitas de corrupção, as quais, segundo o Ministério Público, se concretizaram com a contratação de Silva Carvalho, ex-diretor do SIED, para a Ongoing depois de, alegadamente, ter passado informação secreta àquele grupo económico. Nos últimos meses, a Judiciária ouviu dezenas de “espiões”. Os seus depoimentos terão ajudado a consolidar as suspeitas em causa.

Jorge Silva Carvalho e Nuno Vasconcellos são suspeitos de corrupção
Ministério Público faz uma ligação entre a eventual transmissão de informações secretas para a Ongoing e a posterior contratação do ex-diretor do SIED

Carlos Rodrigues Lima

Jorge Silva Carvalho, ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), e Nuno Vasconcellos, presidente do grupo Ongoing, foram, ontem, constituídos arguidos num processo que envolve suspeitas de violação do segredo de Estado, devassa da vida privada do jornalista Nuno Simas e, pela primeira vez neste caso, o Ministério Público ( MP) avançou com mais uma: corrupção. De acordo com informações recolhidas pelo DN durante o dia de ontem, Silva Carvalho e Nuno Vasconcellos terão sido confrontados com a relação “causa-efeito” que o MP faz entre a alegada transmissão de informações do SIED para a Ongoing e a posterior contratação do ex-director do SIED para os seus quadros. Para o MP, isto representará uma contrapartida.
Este dado faz que o processo de Silva Carvalho ganhe outros contornos, já que, até agora, apenas se falou de devassa da vida privada e acesso ilegítimo a dados de telecomunicações (no caso da faturação detalhada do jornalista Nuno Simas) e eventual violação do segredo de Estado, sendo que esta última situação não será completamente clara, já que a Comissão de Fiscalização dos Serviços de Informações, presidida pelo ex-deputado Marques Júnior, afastou esta suspeita.
Seja como for, com a constituição como arguidos de Silva Carvalho e Nuno Vasconcellos – nenhum quis fazer qualquer comentário ao caso, o mesmo se passou com os respetivos advogados, Nuno Morais Sarmento e Daniel Proença de Carvalho –, o processo deverá entrar na reta final, com a apresentação do relatório da investigação da Polícia Judiciária e o posterior, e mais que provável, despacho de acusação da 9. ª Secção do DIAP de Lisboa.

Espiões em fila na Judiciária

Nos últimos meses, os investigadores, para além da análise aos computadores e telemóveis de Silva Carvalho, têm inquirido vários elementos das “secretas”. Estes depoimentos também terão cimentado as suspeitas de corrupção, já que muitos “espiões” terão relatado eventuais relações de proximidade entre Silva Carvalho e grupos económicos. Não foi, porém, possível apurar o conteúdo exato dos seus depoimentos.
Este caso começou, no verão de 2011, com a revelação, feita pelo semanário Expresso, de que Jorge Silva Carvalho tinha acedido a uma listagem de telefonemas do jornalista Nuno Simas. O objetivo passaria por conhecer as fontes do jornalista no interior do SIED. O caso viria a evoluir com a inclusão de um outro espião, João Luís, um quadro do Serviço de Informações e Segurança (SIS) que Jorge Silva Carvalho terá levado para o SIED.
No final do ano passado, o DN acabaria por revelar que a faturação detalhada do jornalista terá chegado às mãos de Silva Carvalho através de uma funcionária da Optimus que era casada com um espião do SIS colocado no Porto. Todas estas situações estão a ser investigadas pelo 9. ª Secção do DIAP e por uma equipa da Unidade Nacional contra a Corrupção, que reporta diretamente ao MP. Aliás, ontem, fonte da PJ comentou assim o facto de ter sido conhecida a inquirição de Nuno Vasconcellos: “Das dezenas de pessoas que já ouvimos, esta, infelizmente, foi a única que se soube.”

O mais jovem chefe da história dos espiões

PERFIL Jorge Silva Carvalho tornou-se notícia em novembro de 2010, quando foi revelado que se teria demitido da direção do SIED (Serviços de Informação Estratégica de Defesa), cargo a que tinha ascendido em março de 2008, quando tinha apenas 41 anos (não há memória de um chefe tão jovem na espionagem nacional). Na altura da demissão ficou a ideia de que o fizera devido a restrições orçamentais que tornavam os serviços inferíveis. Semanas depois, porém, foi noticiado que se transferira para a Ongoing, um grupo de comunicação social liderado por Nuno Vasconcellos.
A Maçonaria era o que os ligava. Eram ambos membros da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), a segunda maior obediência maçónica em Portugal. E “militavam” ambos na Loja Mozart 49, reativada por Silva Carvalho em 2006 (um ano depois de se inscrever na GLLP) – e à qual também pertenciam influentes figuras do PSD. Em Julho de 2011 rebentou a bomba: o Expresso noticiou que antes e depois de deixar o SIED Silva Carvalho fizera chegar à Ongoing informação privilegiada, obtida pelos meios daqueles serviços secretos. Mais tarde, outra bomba: Silva Carvalho teria tido acesso aos registos telefónicos de um jornalista (Nuno Simas, então no Público, hoje na Lusa) que investigou os serviços.
Jorge Manuel Jacob da Silva de Carvalho nasceu em Moçambique em maio de 1966. Licenciou- se em Direito em Lisboa. Entrou no SIS em 1991. 17 anos depois era diretor do SIED.

Um ‘ bon vivant’ que tratou Pinto Balsemão por ‘ pai’

VI DA Filho de Luís Vasconcellos – um dos fundadores do Expresso ao lado de Francisco Pinto Balsemão – e neto de João Rocha dos Santos, fundador da Sociedade Nacional de Sabões, Nuno Vasconcellos nasceu em Lisboa, em 1964, frequentou o ensino secundário na Bélgica e licenciou-se em Gestão de Empresas em Boston, EUA.
Presidente da Ongoing desde 2004, a sua ligação ao grupo Impresa, em que detém uma posição acionista de 23%, levou a que tentasse um acordo com Balsemão, seu padrinho de casamento e a quem em tempos chamava de “pai”, para comprar uma posição de maior relevo no grupo de comunicação que detém a SIC. Balsemão não abriu mão do controlo do grupo e o empresário virou-se para a TVI. Após a operação falhada de compra de 30% da estação de Queluz de Baixo por parte da PT e tendo em conta que a Ongoing tem uma participação de 6,7% na operadora, Vasconcellos foi visto como testa de ferro da PT para a concretização da operação que a PT abandonou.
O investimento do empresário no sector media ganhou expressão em 2008 quando comprou o Diário Económico. Desde então já lançou um jornal de economia no Brasil e estabeleceu parcerias com grupos de media em Angola e Moçambique.
Descrito pelos amigos como um bon vivant e membro de uma loja maçónica, Vasconcellos está separado da empresária Maria Alexandra Mascarenhas, de quem tem duas filhas. A Exame avaliou a fortuna da sua família em 370 milhões de euros.

Campanhas de suspeitas sobre espiões e maçonaria

CASO As notícias sobre tráfico de informações do ex-diretor do SIED para a empresa Ongoing suscitaram polémicas públicas, audições parlamentares e propostas legislativas

Após a guerra pelo controlo da Impresa (a holding proprietária do Expresso e da SIC), que tornou o nome da Ongoing conhecido do grande público, a polémica ligação da empresa presidida por Nuno Vasconcellos com o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), onde tinha trabalhado o seu novo colaborador e ex-super espião Silva Carvalho, a que se acrescentaria a maçónica Loja Mozart (onde também teria estado o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro) como local do hipotético tráfico de influências entre estes “irmãos”, provocou debates apaixonados na opinião pública.
Afinal, os elementos investigados e classificados pelos serviços de informação para assegurar a defesa do Estado podem ou não tornar-se segredos do conhecimento de empresas privadas? Esses dados podem servir para aconselhar o afastamento de um potencial ministro, como chegou a ser sugerido em relação a Bernardo Bairrão? Um ex-diretor do SIED podia ter uma lista em que, entre mais de 3800 nomes organizados pelo “grau de confiança” que ofereciam àquele serviço de informações, se incluíam ministros de José Sócrates e de Passos Coelho, o procurador-geral da República, magistrados, polícias, militares, empresários e jornalistas? As conversas telefónicas de um jornalista podem ser escutadas, como parecem ter sido as de Nuno Simas, só para o SIED apurar quem eram as suas fontes de informação? E os deputados devem ou não, a par da declaração de interesses, declinar a sua pertença à maçonaria, para assim garantirem a transparência na vida política?
Todas as interrogações foram tema de debates na AR (sobretudo os com o primeiro-ministro), audições de envolvidos em comissões parlamentares, declarações do Governo e oposições sobre os mais polémicos (como as escutas a Nuno Simas), tomadas de posição da sociedade civil (até o cardeal-patriarca se manifestou acerca da obrigatoriedade dos maçons o declararem), mesmo projetos de diplomas (por exemplo, o do PS sobre um período de nojo para funcionários dos serviços secretos). Mas a verdade dos factos só será apurada pela Justiça.

Diário de Notícias 2012-04-27

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