Prever crimes antes de o serem
Prever crimes antes de o serem
Da ficção para a realidade, um sistema informático ajuda polícia de Memphis a antecipar problemas A cidade norte-americana de Memphis não vive há seis anos sem crimes, como acontece na Washington D. C. de 2054 levada à tela por Spielberg em MinorityReport, mas a polícia local tem percentagens interessantes dos últimos seis anos. Neste período, a criminalidade baixou 30% em Memphis, os crimes violentos diminuíram 15% e o motivo, dizem as autoridades, é que a polícia passou a utilizar um programa de “análise preditiva” baseada em algoritmos que tentam prever as ocorrências de crimes antes de eles acontecerem. Ainda não é exatamente Phillip K. Dick – o autor que escreveu o conto The MinorityReport, no qual se baseia o filme de Spielberg –, mas a aproximação da realidade à ficção dá que pensar. O sistema, designado CRUSH, utiliza estatísticas históricas com vista à diminuição da criminalidade, foi desenvolvido pela IBM e está a ser utilizado pela polícia desta cidade dos Estados Unidos exatamente há seis anos. O princípio é o mesmo de alguns programas informáticos que usam dados dos consumidores e um algoritmo (sequência de operações matemáticas para resolver um tipo de problema) para fazer estimativas sobre as tendências de consumo para o futuro. No caso da polícia, o objetivo é antecipar a possibilidade de ocorrerem crimes para impedir que aconteçam. “Podemos construir um modelo de comportamento com vários fatores, como o período do ano, a humidade, o calor, o frio ou a neve, se é dia de pagamento e se as pessoas têm dinheiro com elas”, explicou ao jornalista Rob Lever, da AFP, o diretor da unidade de análise preditiva de criminalidade da IBM, Mark Cleverly, que trabalha com os serviços de polícia de Londres e de várias cidades dos Estados Unidos, do Canadá e da Polónia. “Isso não quer dizer que vai ocorrer um crime num determinado local a uma determinada hora, isso ninguém pode prever”, sublinha Mark Cleverly, “mas pode dizer-nos, por exemplo, que podemos esperar uma onda de roubos de automóveis”. Na prática, o sistema CRUSH tem permitido à polícia de Memphis identificar os pontos mais críticos na cidade e distribuir o patrulhamento a agentes de acordo com essas indicações, diz a polícia. “Quando os dados nos indicam um ponto quente, podemos reagir imediatamente”, explica por seu turno John Williams, que dirige o departamento de análise criminal da polícia de Memphis. “Em muitos casos já conseguimos fazer detenções importantes porque estávamos no sítio certo à hora certa”, afirma. Um caso exemplar de sucesso, segundo aquele especialista, ocorreu recentemente, quando as autoridades conseguiram desmantelar uma rede de ladrões. “Tínhamos tido 84 casos de roubo num bairro hispânico, mas não sabíamos até que ponto os assaltantes estavam organizados”, conta John Williams. Graças aos dados inseridos no sistema, foi possível identificar a zona e o horário mais prováveis para a ocorrência de novos roubos e, no final, conta Williams, “apanhámos um bando em flagrante delito, que nos orientou para outros roubos”. Outras cidades nos Estados Unidos e no mundo estão a seguir o exemplo de Memphis. Resta saber, até que ponto a nova tendência vai colidir com a liberdade e a segurança dos cidadãos. Como diz o especialista em direito Andrew Fergusson, da universidade de Colúmbia, ouvido pela AFP, isso poderá levar “a excessos”.
Diário de Notícias 2012-08-01










