Ajuda a endividados na Deco passa os 5400 casos em 2012


Ajuda a endividados na Deco passa os 5400 casos em 2012

Número recorde de processos representa aumento de 26% face a 2011 e diz respeito a dívidas superiores a 180 milhões de euros. Desemprego e precariedade são as principais causas

Número recorde de sobreendividados na Deco atinge dívidas de 180 milhões

Associação recebeu mais de 23 mil pedidos de ajuda em 2012 e abriu 5407 novos processos de apoio a famílias em dificuldades. Desemprego continua a ser o grande rastilho, mas também a precariedade

Endividamento

Raquel Almeida Correia

O número de famílias em dificuldades financeiras que pedem ajuda à Deco continua a aumentar. Em 2012, o gabinete de apoio a sobreendividados criado pela associação recebeu mais de 23 mil contactos, o que significou um acréscimo de 16% face ao ano anterior. Deste universo, 5407 casos resultaram na abertura de processos de acompanhamento, que, no total, acumulam dívidas superiores a 180 milhões de euros. Dados cedidos ao PÚBLICO pela Deco mostram que, face a 2010, o número de pedidos de ajuda cresceu 94%, passando de 11.960 para 23.193 no final do ano passado. Uma vez recebidos estes contactos, a associação faz uma triagem, já que não acompanha casos em que as dificuldades financeiras sejam causadas pelo próprio e não por factores alheios, como o desemprego, nem situações que já estejam nos tribunais, em processos de insolvência. Feito este filtro, o Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS) chegou ao último mês de Dezembro com 5407 casos formais de acompanhamento abertos, valor que compara com os 4292 de 2011. Trata-se de um aumento homólogo de 26%, que, apesar de expressivo, é inferior à subida de 51,2% registada entre 2010 e 2011.

A Deco conseguiu apurar, por via do portal online lançado em Julho, que os processos abertos durante o segundo semestre do ano passado (num total de 2759) afectavam, na verdade, 6424 pessoas, porque cada caso arrasta geralmente uma família para o sobreendividamento e não tanto um indivíduo isolado. De acordo com as estimativas da coordenadora do GAS, o conjunto dos processos de 2012 deverá, por isso, equivaler “a mais de 13 mil pessoas”.

Já as dívidas associadas aos casos acompanhados na segunda metade do ano atingiram um valor de 89,5 milhões de euros. Natália Nunes antecipa, por isso, que a globalidade dos processos abertos entre Janeiro e Dezembro corresponda “a mais de 180 milhões de euros” de créditos e outras contas que ficaram por pagar.

Dificuldades básicas

Os sobreendividados que recorreram ao GAS em 2012 apresentam, em média, uma dívida de 69.104 euros. A maior fatia (34,7%) dizia respeito a créditos pessoais, seguindose os cartões de crédito (29,2%) e a prestação da casa (17,8%). O crédito automóvel surge em quarto lugar, representando 11,9% do total, e os restantes 5,2% dizem respeito a outras dívidas, como a electricidade. Natália Nunes diz, aliás, que esta é uma das grandes mudanças sentidas em 2012. Um ano em que as contas por pagar em serviços básicos se tornaram muito mais recorrentes. “As famílias têm cada vez mais dificuldades em honrar os seus compromissos, mesmo os deste tipo, porque os rendimentos diminuíram e o preço dos serviços aumentou”, explica. E estas famílias não foram necessariamente atingidas por situações de desemprego. É que, apesar de esta continuar a ser principal causa das situações de sobreendividamento (pesando 39,7%), o perfil dos que são acompanhados pela Deco mostra que os trabalhadores do sector privado representaram 34% do total, ultrapassando os desempregados (29,1%). São trabalhadores afectados pela segunda causa mais recorrente do sobreendividamento: a deterioração das condições laborais. “Na maioria, trata-se de pessoas afectadas por cortes salariais”, mas também por suspensões temporárias dos contratos de trabalho ou pelo não pagamento atempado dos salários, refere a coordenadora do GAS. De entre os motivos que mais levam as famílias a recorrer à associação há um que, embora seja ainda pouco expressivo (5,4%), tem vindo a ganhar terreno. São os casos das pessoas que se constituem fiadores de terceiros em empréstimos e que se vêem arrastadas para dificuldades financeiras quando os devedores originais entram em incumprimento. Outra causa com alguma expressão é a alteração do agregado familiar (7,9%), uma situação que está geralmente ligada aos nascimentos mas, cada vez mais, ao regresso dos filhos a casa dos pais.

No perfil traçado pela Deco, ressalta ainda o facto de, em 55,3% dos casos, se tratar de pessoas com idades compreendidas entre os 40 e os 65 anos. Além disso, 54,5% dos sobreendividados são casados. Dos mais de 23 mil contactos recebidos em 2012, quase dez mil chegaram de Lisboa, o distrito com maior incidência de pedidos de ajuda.

A coordenadora do GAS não está optimista em relação a 2013, face às medidas inscritas no Orçamento do Estado. “Vai ser um ano muito difícil para as famílias. Mesmo os que conseguirem manter o trabalho, terão cada vez mais dificuldade em cumprir as suas obrigações financeiras”, prevê.