O segredo do Bispo


O segredo do Bispo

A QUEDA DE UM ANJO

A denúncia de um sacerdote ao núncio apostólico, em 2010, estará na origem das suspeitas de assédio sexual a membros da Igreja por parte de D. Carlos Azevedo. Os casos virão desde os anos oitenta. Em 2011, o antigo bispo auxiliar de Lisboa e nome falado para patriarca foi nomeado para o Conselho Pontifício da Cultura da Santa Sé. Esta é a história proibida do bispo da Cúria Romana que coordenou a visita do Papa Bento XVI a Portugal e do escândalo que a Igreja manteve em segredo

POR MIGUEL CARVALHO

Naquele 11 de novembro de 2011 quase se poderia escutar o repicar dos sinos. Da Santa Sé, chegara a informação oficial, logo badalada: D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, fora nomeado pelo Papa para delegado do Conselho Pontifício da Cultura, organismo da Cúria Romana, conhecido como o «Governo» da Igreja, e presidido pelo cardeal Ravasi, um dos nomes que se perfilam para substituir Bento XVI.

No interior da Igreja – e fora dela – a boa nova foi recebida com júbilo. Era, comentou-se, o reconhecimento papal de uma brilhante e fulgurante figura do firmamento católico nacional. «Agradeço, muito reconhecido, esta prova de confiança», declarou, na altura, D. Carlos, adiantando que recebera «o convite» em abril desse ano. O bispo animara-se com a possibilidade de criar «propostas pastorais inovadoras, a partir dos bens culturais» e antecipava uma mudança de vida, agora «mais dedicada ao estudo, concentração e orientação».

Até ali, D. Carlos Azevedo ocupara vários e importantes cargos na Igreja, entre os quais o de presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social. É também, desde há vários anos, um dos nomes falados para suceder ao cardeal-patriarca D. José Policarpo, que atingiu o limite de idade, embora permaneça no cargo.

COM SOMBRA DE PECADO

À primeira vista, a ida para a Santa Sé seria mais um momento irradiante, no percurso imaculado deste intelectual da Igreja, de porte respeitável e cabelo alvo, nascido em Milheirós de Poiares, Feira, há 59 anos. Mas a saída repentina do País deixara sombras por iluminar.

Tudo começara em 2010, altura em que o bispo D. Carlos fora denunciado ao núncio apostólico em Portugal por assédio sexual a membros da Igreja Católica.

Segundo fontes da hierarquia eclesiástica, em Lisboa, o sacerdote José Nuno Ferreira da Silva, de 48 anos, coordenador nacional das capelanias hospitalares, foi o autor da denúncia a Rino Passigato, representante diplomático da Santa Sé, encontrando-se o próprio queixoso entre as supostas vítimas de assédio por parte do bispo, em diversas ocasiões. «Sou padre. O que tinha a dizer sobre esta questão disse-o no tempo oportuno e necessário, nas instâncias certas, dentro da Igreja», declarou, por mail, à VISÃO, na última sexta, 15, o capelão do Hospital de São João, recusando-se a adiantar mais pormenores.

O sacerdote e o bispo cruzaram-se pela primeira vez, nos anos 80, no Seminário do Porto, do qual D. Carlos era diretor espiritual. Ordenado em 1989, o padre José Nuno foi presença regular nas reuniões da Conferência Episcopal Portuguesa quando se discutiu a polémica regulamentação da assistência espiritual e religiosa nos hospitais.

Segundo fontes eclesiásticas, o «embaixador do Papa» validou a queixa do sacerdote. O encontro entre ambos terá desencadeado uma «investigação» da Nunciatura, com conhecimento e colaboração de setores da hierarquia católica, permitindo referenciar outros casos suspeitos de assédio por parte de D. Carlos, consumados ou não. O núncio promoveu as diligências confidenciais que lhe competiam para averiguar a fiabilidade das suspeitas e terá depoimentos e informação suficientes para concluir que os assédios ao padre José Nuno não foram casos isolados. Pelo contrário: haverá um histórico de situações, e com sombra de pecado, desde a década de 80 até anos mais recentes. Em 2005, D. Carlos saiu da diocese do Porto para bispo auxiliar de Lisboa.

«O padre José Nuno é um homem íntegro, credível, que honra a Igreja e a quem a Igreja deve muito, sobretudo pelo seu trabalho na Pastoral da Saúde», afirmou à VISÃO D. António Couto, bispo de Lamego, atestando o caráter do autor da denúncia. «É uma excelente pessoa, séria, trabalhadora, empenhada nas missões que sempre lhe estiveram atribuídas. Além disso, é autor de uma tese notável sobre a humanização da morte nos hospitais», adiantou o prelado, sem querer, para já, pronunciar-se sobre o caso em concreto.

Doutorado em Bioética pela Universidade Católica, a edição da tese foi prefaciada por D. Manuel Clemente, bispo do Porto, e juntou, na Aula Magna, em Lisboa, Maria Barroso, Vítor Feytor Pinto, da Pastoral da Saúde, e Paulo Macedo, ministro da Saúde. No início de 2011, o convite da Santa Sé a D. Carlos já não tinha volta atrás. Meses depois era público. Através dos respetivos gabinetes, D. José Policarpo e Rino Passigato optaram por não responder às perguntas da VISÃO sobre este caso: «Referindo-se a sua investigação a um bispo da Igreja compete à Nunciatura pronunciar-se sobre a referida questão», informou o Padre Nuno Fernandes, do gabinete de comunicação do Patriarcado. Questionado sobre as denúncias, a sua veracidade, os procedimentos adotados pela Nunciatura e os motivos do convite da Santa Sé a D. Carlos, o núncio agradeceu as perguntas, mas informou a VISÃO de que não responderia.

Em matéria de censura à conduta homossexual na Igreja, Passigato tem fama de intransigente. Próximo do Opus Dei, a passagem anterior pelo Peru, nas mesmas funções que agora exerce, deixou um rasto de ingerências nos assuntos de Estado. Segundo a imprensa andina, o núncio recomendou ao ministro das Relações Exteriores do Peru – um dos feudos mais conservadores do catolicismo – que rejeitasse uma resolução do Brasil levada à 60.ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em 2004, em que se condenava a intolerância religiosa e reconhecia a orientação sexual como um dos direitos humanos.

Segundo a doutrina católica, os casos de assédio sexual na Igreja praticados por um membro do clero, bem como a conduta homossexual envolvendo diáconos, padres e bispos é, para além de pecado grave, um crime, tipificado no Código de Direito Canónico, no cânone 1395: «O clérigo que permanecer com escândalo em pecado externo contra o sexto mandamento do Decálogo, seja punido (…)» As penas previstas podem ir da admoestação até à suspensão «e, no caso de o padre ou o bispo não se emendar, chegar à demissão do estado clerical, que é a pena mais pesada e implica deixar de exercer o seu ministério em qualquer lugar do mundo», explicou um juiz diocesano à VISÃO.

«A vítima pode e deve acusar esse membro do clero ao seu superior hierárquico. Esse tipo de denúncia não pode ser ignorado», explica o canonista. O assédio sexual é, também, penalizado segundo o artigo 29.ª do Código do Trabalho, mas não constitui crime público, ainda que a coação ou a ameaça o sejam. «Se o Ministério Público tiver conhecimento de assédio por um membro do clero deve tratá-lo como trata qualquer outra denúncia», explica o referido especialista, concluindo: «Comparando a legislação civil com a da Igreja, verifica-se ser esta última muito mais pesada e célere em relação aos crimes de assédio.

XEQUE AO BISPO

Num encontro da Comissão da Pastoral Social, à qual D. Carlos presidia, realizado em Fátima, em setembro de 2011, o tema da sua ida para Roma já circulava nos corredores do Seminário do Verbo Divino, local do evento. A transferência para a Santa Sé foi, na ocasião, comentada em surdina, entre a incredulidade e a estranheza. «Não fazia sentido. Falavam dele para patriarca e mandavam-no para a Santa Sé?! Ficámos com a pulga atrás da orelha», comentou à VISÃO um dos participantes, na altura sem imaginar a gravidade das suspeitas.

No início de novembro, D. Carlos terse-á despedido formalmente dos seus «irmãos» e colegas da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, em Fátima, da qual foi porta-voz. Entre membros do clero lisboeta, as desconfianças acentuaram-se com o facto de D. Carlos ter abandonado a capital em novembro de 2011, sem dar uma palavra aos amigos e sem realizar sequer um jantar de despedida, comportamento estranho, tendo em conta o perfil do visado e a indigitação. «Quando demos por isso, já ele tinha empacotado tudo e partido. Foi então que alguns começaram a questionar-se sobre a veracidade do tal convite e o porquê de tanta pressa», recorda um elemento da diocese de Lisboa.

Haveria ainda um outro episódio. Em maio do ano passado, já com D. Carlos investido das novas funções no Vaticano, o padre José Nuno procurou-o em Fátima. Bispos e outras figuras da Igreja assistiram ao momento em que o capelão abordou D. Carlos, solicitando um encontro privado, que foi aceite no imediato, garantiu à VISÃO um clérigo que assistiu à cena. Embora se desconheça o motivo e o teor da conversa a dois, fontes eclesiásticas no local asseguram que o sacerdote terá assumido, olhos nos olhos, a autoria da denúncia.

As suspeitas em relação aos comportamentos de D. Carlos chegaram também ao conhecimento da Rede de Cuidadores, organização que denunciou situações de pedofilia na Igreja. A organização, da qual fazem parte o psiquiatra Álvaro de Carvalho e Catalina Pestana, confirmou oficialmente à VISÃO conhecer, desde finais de 2011, e através de relatos feitos a seus dirigentes, várias versões de casos de índole sexual alegadamente envolvendo o bispo. Para já, não existem indícios de que as suspeitas entrem no âmbito da atuação da Rede, mas a organização, que colabora com o Ministério Público nas investigações sobre abusos sexuais de crianças e jovens em instituições católicas, está atenta.

Em setores da Igreja, circularam outras narrativas sobre o «convite» a D. Carlos, além, claro, da versão oficial.

Por um lado, argumentava-se que, na base da saída de cena, estariam o desconforto manifestado pelo cardeal-patriarca com o protagonismo do bispo na vida eclesiástica e nos media, além das dificuldades de lidar com o seu feitio difícil. As relações entre ambos não seriam as melhores, mas em caso algum justificariam tal desfecho.

Uma segunda versão sugeria que a ida para Roma estaria relacionada com «problemas de dinheiros», mas a tese revelou-se inverosímil, embora com um fundo de verdade. Segundo fontes da diocese do Porto, D. Carlos tem a fama de perfeccionista, organizado e exigente, sendo-lhe assacada, contudo, alguma megalomania. A postura dará excelentes resultados mediáticos, mas também custos acrescidos. Um exemplo: as faustosas comemorações do Jubileu do Ano 2000, concentradas na Alfândega do Porto, e que envolveram catálogos luxuosos e outras extravagâncias, ficaram célebres. Quase tanto como o desabafo de D. Armindo Lopes Coelho, então bispo do Porto, quando viu zeros a mais nos custos do evento comissariado por D. Carlos: «Nunca se entrega a carteira a um artista», ironizou, perante testemunhas.

Além de outras responsabilidades, o bispo é, desde outubro, coordenador do setor do património histórico e artístico da Santa Sé. Por cá, também não saiu de cena, marcando presença regular em iniciativas da Igreja. Em outubro, enquanto presidente da Fundação SPES (criada pelo mítico bispo do Porto D. António Ferreira Gomes), falou num seminário, na Cidade Invicta, sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II. Em novembro, na companhia do cardeal Ravasi, promoveu, no Minho, um livro e uma exposição integrada no projeto do Átrio dos Gentios.

Em janeiro, orientou, no Seminário de São Paulo, em Almada, umas jornadas de formação do clero. Uma agenda intensa que ajuda a imprensa a colocá-lo na short list de sucessores do atual patriarca, a par de D. Manuel Clemente e D. António Marto (Leiria-Fátima).

“QUEM ME SERVE, SIGA-ME”

Recuemos, por agora, à tarde de 2 de abril de 2005, um sábado.

Em Roma, o Papa João Paulo II agoniza. No Porto, a Igreja da Trindade é pequena para as 2 mil pessoas que participam na celebração da ordenação episcopal de D. Carlos. Ilustres da política, da cultura, académicos e religiosos acotovelam-se. D. José Policarpo, cardeal-patriarca, é o sagrante da cerimónia.

Para chegar ali, o novo bispo auxiliar de Lisboa passara pelo exigente processo de ordenação, durante o qual é recolhida, em coordenação com a Nunciatura, informação sobre o «candidato» ao episcopado.

Por norma, a investigação é demorada, exaustiva e feita nas áreas civis e religiosas, ouvindo padres, bispos, amigos e opositores, conterrâneos, colegas de curso e quem mais for considerado útil para traçar o perfil da figura. «Chegam a ser ouvidas centenas de pessoas. Por causa dos escândalos sexuais na Igreja, a malha está cada vez mais apertada», confirma um vigário-geral, conhecedor dos procedimentos. Em 2005, D. Carlos passou então, sem mácula, pelos filtros da Igreja.

Na cerimónia da Trindade, renovou o apelo de Cristo «Quem me Serve, Siga-me» para lema da sua missão pastoral. «Não permitais que o ser construído para estar perante vós, me dispense de ser fiel discípulo de Cristo», implorou, consciente das «inquietações e expectativas da vida dos padres» e dos «caminhos exigentes» da Igreja. «Aos que não dei testemunho de vida segundo os critérios do Evangelho e cujas arestas dos meus limites criaram obstáculo à circulação do bem, peço perdão.

O momento foi solene, de alegria contida.

Mas a tristeza espreitava.

Poucas horas após a cerimónia, morria João Paulo II.

No momento, a história de D. Carlos Azevedo na Igreja estava ainda por escrever, mas o seu nome acabara de entrar na História: com a morte do Papa, o português tornava-se o último bispo no mundo a ser ordenado pelo velho Karol Wojtyla.

Nascido numa família católica e austera, o poderoso e influente clã dos Moreira Azevedo, da Feira, o bispo foi um entre dez irmãos. Divide o mediatismo familiar com o mano Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado de Cavaco e atual reitor da Universidade Católica, no Porto. Administram ambos a Fundação Manuel Leão, em Gaia, cujo estatuto de pessoa coletiva de utilidade pública atribuída em 2002 por Durão Barroso foi agora retirado pelo Governo PSD/CDS.

Ordenado sacerdote em 1977, D. Carlos foi diretor espiritual do Seminário do Porto, durante 12 anos (1981-1993). O cargo é dos mais importantes da Igreja. Ao seu titular compete acompanhar os candidatos ao sacerdócio, recordando-lhes as exigências da castidade e da maturidade afetiva. D. Carlos era ainda obrigado a avaliar a presença de eventuais distúrbios sexuais nos jovens que queriam ser padres e a sua personalidade, devendo, no caso de detetar tendências homossexuais, dissuadi-los de prosseguir para a ordenação.

Em 1987, no jornal O Primeiro de Janeiro, o então diretor espiritual atribuía a crise de vocações sacerdotais ao aparecimento, entre outros fatores, da civilização «onde impera o imediatismo da satisfação, quer dos interesses pessoais quer do próprio corpo». A opção pelo celibato requeria, disse, «uma personalidade bastante equilibrada, forte e sadia». Caso contrário, «haverá possibilidade de desvios», referiu, durante a entrevista coletiva na qual participou, entre outros, o padre José Nuno, à época um seminarista de 22 anos.

O bispo liderou, igualmente, a paróquia da Senhora da Conceição, no Porto, tendo ocupado diversas funções de direção na diocese. Doutorado na Faculdade de História Eclesiástica da Universidade Gregoriana, em Roma, D. Carlos foi professor de Teologia na Universidade Católica, chegando a vice-reitor da instituição. À época da transferência para a Santa Sé, era bispo auxiliar de Lisboa, presidente da Comissão da Pastoral Social, secretário da Conferência Episcopal e presidente da Comissão Episcopal de Bens Culturais e Comunicações Sociais. Em 2010, recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Desde sempre, o bispo dividiu o seu tempo por atividades pastorais, culturais e sociais. É um trabalhador incansável. Organiza eventos, discursa, escreve, dirige dezenas de obras e publicações nas quais também colabora. Coordenou, entre outras, a monumental História Religiosa de Portugal.

A sua postura ativa e altiva gera invejas, ciúmes e devoções. «Ou se ama ou se odeia», resume um padre do Porto. Para uns é «um anjo na terra», um empreendedor da Igreja. Para outros, o protótipo do umbiguismo e da «arrogância eclesiástica». Ama o teatro, que praticou e encenou, e gosta de cozinhar, sendo apreciado o seu pernil com grelos. A poesia é outra paixão. Elege Daniel Faria como «o amigo maior», tendo editado, através da Fundação Manuel Leão, duas das suas obras. À data da morte do escritor no mosteiro beneditino de Singeverga, com 28 anos, amigos e professores de Daniel não perdoaram o facto de D. Carlos querer assumir o papel de mentor e herdeiro espiritual do poeta para aceder ao espólio, o que não conseguiria. Tal não o impediu de lançar a Associação Casa Daniel, em São Pedro das Águias, Tabuaço. A ideia, segundo ele, nasceu nas viagens anuais com o poeta à região, por altura das amendoeiras, para meditação. Ali pretende erguer «um pequeno centro de espiritualidade», para o qual já cedeu os terrenos, o projeto de arquitetura e os direitos da venda do seu livro Ribeiros de Esperança.

O SANTO E A SANTIDADE

D. Carlos deu nas vistas em Lisboa, a partir de 2005. Enquanto bispo auxiliar, assumiu o papel de «vigilante» e «sentinela». Ficou responsável, entre outras, pelas zonas da Amadora, Sintra, Cascais, Estoril, Oeiras, liderando, ainda, os departamentos de Evangelização, Comunicação e Cultura da diocese. Policarpo confiou-lhe vários movimentos de leigos, sobretudo ligados à juventude, nos quais se incluíam a Equipa de Jovens de Nossa Senhora, o Movimento Católico de Estudantes e o Movimento Encontros de Jovens Shalom.

Fora da Igreja, veem-no como um liberal, janela aberta da intelectualidade eclesiástica, «uma das mais autorizadas vozes» do catolicismo, assinalou Maria João Avillez, jornalista. Costuma dizer que a sua escola é a de D. António Ferreira Gomes, forçado ao exílio por Salazar. Defende «abertura de horizontes» em relação ao papel da mulher na Igreja e sugere «uma atitude menos proibitiva, moralista e autoritária» do magistério da instituição.

Não recusa o confronto político. Em 2008, criticou a canalização de dinheiro para as instituições bancárias em detrimento da ação social. Em 2010, desafiou os políticos a baixar os próprios vencimentos, defendeu o aumento do salário mínimo e alertou para os riscos da emigração forçada de «pessoas de grande valor». O modelo económico em vigor no País, afirmou, é «injusto, indecente, desigual, desproporcionado». No Expresso, desafiou os católicos a saírem do sofá e a tomarem posição sobre a crise. Reclamou celebrações cristãs «mais politizadas», atentas «à realidade concreta da vida das pessoas». A 2 de abril de 2010, Sexta-Feira Santa, despediu-se da sua coluna de opinião no Correio da Manhã com um artigo intitulado Que mal te fiz eu?. Assumindo a voz de Cristo na cruz escreve: «Criei-te para a relação, incluindo a vivência da sexualidade num projeto de vida humanizador, e tu não dominas nem vives com liberdade essa energia espantosa.

Dentro da Igreja, D. Carlos é, no entanto, tido pelos liberais como conservador e apegado à rigidez da doutrina católica. Tem fortes ligações ao Movimento Oásis, que propõe um «ideal de santidade» onde o celibato e a castidade reluzem. Num dos seus livros, Ser Padre, guião espiritual e pastoral sobre o sacerdócio, escreveu: «É essencial estar protegido de um mundo sedutor, junto de Deus, no silêncio de uma igreja ou capela.» Por isso, «escolher ser pobre, casto e obediente é fazer todo o caminho de Jesus», oferecendo-se ao «amor vivido no celibato».

Bem relacionado com o Opus Dei, D. Carlos Azevedo presidiu, em 2007, a uma missa na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, que assinalou a festa litúrgica do fundador da Obra, Josemaria Escrivá. «Os desafios de uma presença cristã em todos os setores da vida pública são exigentes de qualidade, requerem vigor espiritual, vínculo forte com Deus, convicção ardente, fidelidade à Igreja», referiu, na homília.

‘A VERDADE LIBERTA’

Ao Opus liga-o também a amizade com Pedro Gil, diretor do Gabinete de Informação da instituição e seu braço-direito na coordenação geral da visita do Papa a Portugal, em 2010.

Tempos de nervosismo, esses.

À época, estavam no auge os escândalos sexuais na Igreja e temia-se que a visita de Bento XVI ficasse submersa por esses temas. Em março, dois meses antes da chegada do Papa, D. Carlos fez uma breve declaração à Agência Lusa. Dizia ter «vergonha» dos «crimes» de abusos sexuais de menores, desafiando a Igreja a enfrentar a polémica «com frontalidade», tendo atenção às «vítimas». Garantia, porém, desconhecer casos ocorridos com padres, em Portugal, e criticava a «campanha contra a Igreja, que se transforma quase numa obsessão, numa caça às bruxas». Para fontes eclesiásticas, esta antecipação do tema obedecera a uma estratégia de comunicação destinada a evitar que a agenda mediática dos «escândalos sexuais» contaminasse os dias de Bento XVI no País.

Em Fátima, num encontro preparatório da visita para jornalistas, D. Carlos pedira «uma grande purificação das incoerências, infidelidades e lentidões» no seio da Igreja, mas a hora era de «profecia e invenção», esperando-se que a visita do Papa suscitasse «responsabilidade e coesão». A missão era reconfortar Bento XVI, numa hora difícil. A resolução dos problemas pastorais podia esperar.

Mas nem assim o rebanho estava posto em sossego.

D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, percebera isso em meados desse mês de março, antes de ir ao programa Sinais de Fogo, de Miguel Sousa Tavares, na SIC. Foram então muitos os católicos que o pressionaram a faltar à entrevista ou a moderar o discurso para não colocar a Igreja portuguesa em sobressaltos indesejáveis a semanas de receber o Papa. O seu telemóvel foi então «bombardeado por conselhos de ‘treinadores’» ofertas para «ser submetido a um ‘ensaio geral’» antes da prestação televisiva, latou o bispo na sua crónica Ao Compasso do Tempo, de 26 de março de 2010, difundida em espaços informativos religiosos.

O tema, «sexo e infâmias cometidas com crianças», era «um perigo para a Igreja», admitiu. Contactado pela VISÃO, D. Januário não quis, por agora, adiantar mais pormenores. Sobra o registo do programa televisivo, onde defendeu a divulgação pública dos escândalos sexuais ocorridos dentro da instituição. «Não entendo a Igreja sem a verdade», justificou.

D. Carlos Azevedo também não.

Em 2004, numa reflexão sobre «A Paróquia do Futuro», em Oliveira do Douro, Gaia, afirmou que «o Evangelho é, sem dúvida, a Verdade de Deus sobre o homem e todos têm direito à verdade. A verdade liberta», proclamou. «Os santos são os únicos seres humanos que fazem o que querem. Os pecadores não fazem o que querem porque são arrastados pelas pulsões, vivem de rastos…», assegurou.

No Vaticano, D. Carlos segue a vida eclesiástica ao sabor dos impulsos culturais. Há dias, vimo-lo também em direto, requisitado e disputado pelos canais de televisão para comentar, desde a Santa Sé, a resignação do Papa Bento XVI. Por cá, o vasto leque de admiradores talvez lhe garanta a eternidade. Mas a denúncia sobre a sua conduta no interior da Igreja, com suspeitas de assédio sexual, indicam que o céu vai ter de esperar. Como dizia Kirkegaard, citado pelo próprio bispo numa intervenção na Universidade Católica, «os mesmos caminhos que levam a Roma podem afastar de Roma».