DN-MORGADO INVESTIGA TROCAS DE TELEMÓVEIS


Autor: Carlos Rodrigues Lima
Data: Terça-feira, 01 de Dezembro de 2009
Pág.: 12
Temática: Política

MORGADO INVESTIGA TROCAS DE TELEMÓVEIS

As suspeitas de fugas de informação para alguns arguidos do caso “Face Oculta”vão ser investigadas pelo DIAP de Lisboa, dirigido por Maria José Morgado. A decisão de enviar as certidões relativas a estes factos para o Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa já foi tomada por Pinto Monteiro, procurador-geral da República. Em causa estão, recorde-se, suspeitas de que, a partir de finais de Junho deste ano, alguns dos arguidos do processo tenham trocado de telemóveis, numa fase em que a investigação era completamente secreta.
A súbita troca terá levado os investigadores de Aveiro a suspeitar de fugas de informação da própria investigação, já que terão sido várias pessoas a mudar de número de aparelho de um dia para o outro. Suspeita-se que os arguidos possam ter sido avisados de que estavam em curso escutas telefónicas. De acordo com a última edição do semanário Sol, apenas o empresário Manuel Godinho – o único arguido preso preventivamente – manteve o aparelho, trocando apenas de número. Ora, uma vez que a Polícia Judiciária tinha, além do seu número, também o IMEI (International Mobile Equipment Identity, que pode ser visto em qualquer aparelho através de *#06#) do seu telemóvel registado, tal permitiu continuar com as escutas ao empresário.
Depois, os investigadores tiveram de identificar os seus interlocutores, refazendo novamente toda a teia de contactos.
Segundo aquele semanário, as trocas de telemóveis começaram a 25 de Junho deste ano. Coincidentemente, um dia após uma reunião na Procuradoria-Geral da República, que juntou o procurador de Aveiro, João Marques Vidal, o procurador distrital de Coimbra, Alberto Braga Temido, e Pinto Monteiro.
Foi neste encontro que, pela primeira vez, o PGR foi informado da existência de escutas telefónicas a conversas entre Armando Vara e o primeiro-ministro, José Sócrates. Tendo em conta a coincidência, o DN já questionou a Procuradoria-Geral se alguém no interior do MP é suspeito de ter passado alguma informação mas, desde a semana passada, que não há resposta à questão.
Recentemente, o DIAP de Coimbra acusou um dos arguidos do caso “Face Oculta” de violação do segredo de justiça. A acusação sustenta que o arguido – cujo nome não foi revelado pelo Ministério Público – deu uma cópia de um despacho, que acompanhava os mandados de busca, do procurador de Aveiro à RTP Além da investigação à eventual fuga de informação para os arguidos, o DIAP de Lisboa vai ainda investigar mais suspeitas de violação do segredo de justiça, estas relacionadas com as noticias publicadas.
Paralelamente a estes inquéritos, há ainda outro relacionado com violação do segredo de justiça, mas este nada tem a ver com o processo “Face Oculta”. Trata-se, tal como o DN noticiou no passado sábado, de uma conjunto de elementos que os investigadores apreenderam nas buscas a Armando Vara e que dizem respeito a uma processo que está em curso no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). Será este mesmo departamento a investigar se houve ou não fugas.

Vara regressa amanhã a Aveiro

Armando Vara deverá conhecer amanhã as medidas de coacção que, além do termo de identidade e residência (TIR), lhe serão aplicadas pelo juiz de instrução António Costa Gomes. Na passada semana, o administrador do BCP (com funções suspensas) foi interrogado durante dois dias, mas sem conhecer as medidas de coacção. Armando Vara será suspeito de pelo menos um crime de tráfico de influências, mas o banqueiro tem-se mostrado tranquilo, garantindo que nunca solicitou, nem recebeu, dinheiro do empresário Manuel Godinho a troco de lhe arranjar contratos em empresas participadas pelo Estado.