SOL-PM também mudou telefones


Autor: Felícia Cabrita
Data: Sexta-feira, 04 de Dezembro de 2009
Pág.: 15
Temática: 

PM também mudou telefones

Quando arguidos do ‘Face Oculta’ trocaram de telemóvel, Sócrates fez o mesmo para falar com Vara

JOSÉ Sócrates também mudou de telefone na mesma altura em que os arguidos do processo `Face Oculta’. Segundo o SOL apurou, a partir de 25 de Junho o primeiro-ministro passou a recorrer a outros telefones para continuar a contactar o seu amigo Armando Vara, o que originou a extracção de mais certidões que foram encaminhadas pelo DIAP de Aveiro para o procurador-geral da República (PGR).
Conforme o SOL noticiou na passada edição, a troca de telefones e de cartões pelos arguidos do `Face Oculta’ que estavam sob escuta registou-se no auge da polémica gerada pela notícia da possível compra da M pela PT Suspeita-se de uma fuga de informação, que contribuiu para que o Governo anunciasse, de um dia para o outro, que iria impedir o negócio, quando este estava à beira de ser concretizado.
Até aí, nas conversas com Armando Vara, José Sócrates surgia como tendo tratado da compra da estação televisiva directamente com a administração da PT A partir do dia 25 – e depois de no dia anterior ter garantido no Parlamento que desconhecia o caso -, passou a assumir que não concordava com a transacção.
A Policia Judiciária (PJ) reconstituiu a rede de contactos dos arguidos graças ao empresário Manuel Godinho, que mudou de cartão de telemóvel, mas não de aparelho, cujo número de série (IMEI) também estava sob controlo do sistema de escutas. Verificou-se então que as conversas pelos números até aí usados por Vara e Sócrates mantinham-se, mas que estes passaram a usar novos telefones para continuar a abordar assuntos que o DIAP de Aveiro entendeu que revelavam indícios da prática de outros crimes. Assim, além das duas certidões que já tinham rumado a Lisboa por atentado ao Estado de Direito, através da manipulação da comunicação social, entre outros possíveis crimes, a troca de telefones de Armando Vara e José Sócrates, de novo interceptados, explicará também as sucessivas extracções de certidões para o PGR.
As escutas a Vara mantiveram-se pelo menos até Setembro. A 26 de Junho e a 3 de Julho, o DIAP de Aveiro remeteu ao PGR as primeiras certidões. Em causa estavam então as diligências para a compra da TVI pela PT – que incluiu uma viagem a Madrid, num jacto particular, de alguém da PT que foi estabelecer contactos com os espanhóis da Prisa, proprietária da estação – e a forma de ajudar financeiramente o grupo de comunicação social de Joaquim Oliveira.
Vara e Sócrates falaram ainda da necessidade de afastar o presidente da Refer (Rede Ferroviária Nacional), Luís Pardal, e a respectiva tutela, a secretária de Estado dos Transportes Ana Paula Vitorino. Isto de forma a ajudar Manuel Godinho, que se queixava de estar a ser perseguido na Refer, que impedia que as suas empresas fossem admitidas em concursos de venda de resíduos. Vitorino e Pardal são, aliás, referidos em escutas entre os arguidos José Valentim e Godinho, como amigos de Jorge Coelho, por terem mandado parar a empreitada das obras no Túnel do Rossio (até aí nas mãos da Teixeira Duarte e que passou para a Mota-Engil).
Apesar das cautelas, as conversas entre o primeiro-ministro e Armando Vara mantiveram o tráfego normal e surgiram novos indícios de crimes. Em causa estão também grandes negócios e o financiamento das campanhas eleitorais do PS. Terá sido solicitado a uma empresa, que fez cartazes e panfletos, que empolgasse os valores facturados, de forma a aumentar os custos da campanha (faltando depois investigar o trajecto do dinheiro para verificar para onde tinha ido a diferença).
Resulta das conversas que Sócrates estava a par de tudo. Vara invocava isso mesmo quando falava com os outros arguidos.