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“MENTIRA”

“MENTIRA”

As declarações de Garcia dos Santos numa entrevista de vida à SÁBADO estão na origem desta reação de João Cravinho

O caso JAE e a torpeza ética e moral do senhor general Garcia dos Santos

MÃO AMIGA DEU-ME a ler a Entrevista de Vida de Amadeu Garcia dos Santos, publicada na revista SÁBA- DO de 8 a 13 de agosto.

Transcrevo abaixo um trecho dessa entrevista, começando por notar o convite que fiz ao senhor general, em 1997 para presidir à Junta Autónoma de Estradas (JAE) e por inerência, à JAE – Construções, SA, única parte verdadeira das suas afirmações:

“Foi João Cravinho, ministro das Obras Públicas de Guterres, que o convidou, em 1997. Tinham sido colegas no Técnico, mas mesmo assim não correu bem.

Sim, ele convidou-me e disse-me para quê: ‘Limpar e arrumar a casa, pôr na rua os que não prestam.’ Foi a missão que levei. Corri as casas todas da JAE, de Caminha a Faro, a sede, fui perceber como aquilo funcionava. Depois fui ao ministro e disse-lhe, ‘Tenho aqui 11 nomes da JAE que têm que ir para a rua’. Torceu-se todo. Porque era por ali que saía o dinheiro e as influências, para todas as empresas, para os partidos políticos. E o Cravinho sabia isso perfeitamente, e se corresse com aqueles indivíduos acabava a fonte.

Disse-me que não podia ser. Bem, pedi a exoneração e assinei-a logo alia frente dele.’

As afirmações acima transcritas são uma vilania típica da abjeta torpeza ética e moral de que o senhor general vem fazendo gala há anos, sempre que se refere à sua saída da JAE. Assumidamente, o senhor general é um dos mais compulsivos e despudorados mentirosos que a nossa vida pública conhece, como facilmente se comprova, recorrendo às próprias declarações do senhor general feitas à época.

Estas declarações obrigam-me a fazer dois textos. Um destinado à revista SÁBADO. Outro, bem mais pormenorizado, publicado em (SÁ- BADO.PT) registando e comentando o curriculum vitae do senhor general em matéria de combate à corrupção na JAE, para o qual se remete o leitor interessado em tão edificante história.

O senhor general foi presidente da JAE de 23 de abril de 1997 a 24 de junho de 1999.

Em primeiro lugar: por que razão se demitiu o senhor general? A demissão teve alguma coisa a ver com corrupção?

A pura verdade é que o senhor general se demitiu de presidente da JAE e da JAE – Construções, SA, por uma única razão: o seu conflito pessoal com um vogal do Conselho de Administração da JAE – Construções. SA. A demissão do senhor general não teve nada a ver, rigorosamente nada, com o seu alegado combate à corrupção. Nunca o Senhor General pronunciou ou referiu a palavra corrupção ao longo de todo o processo que levou à sua saída. Nesse mesmo processo nunca o senhor general mencionou sequer qualquer problema referente à JAE propriamente dita. Apenas questões relativas ao seu conflito pessoal dentro da JAE – Construção com o enga Donas Botto, vogal do Conselho de Administração.

A sua carta de renúncia comprova cabalmente tudo o que acima se escreve. Basta lê-la para que fique completamente demonstrada a má-fé e a mentira das suas afirmações. Mas há mais citações igualmente conclusivas.

Por exemplo, na entrevista que o senhor general deu ao Expresso, publicado a 3 de outubro de 1998: “A minha renúncia deveu-se exclusivamente ao facto de não ter sido exonerado o vogal do Conselho de Administração, sr. engº Donas Botto.” Ou na ata do depoimento sob juramento do senhor general à Comissão de Inquérito Parlamentar, reunião de 23 de março de 1999, p. 43: “A minha renúncia teve como origem alguns, inúmeros factos que ocorreram com a forma de funcionar como vogal do Conselho de Administração do sr. eng° Donas Botto.” Os deputados da Comissão de Inquérito perguntaram-lhe então se esses factos não teriam algo a ver com corrupção. A resposta é um reforçadíssimo NÃO (p. 176 da ata): “Eu nunca acusei o engs Donas Botto de corrupção. Nunca o acusei. A minha carta de renúncia é clara e nela nem falo de corrupção.”

Assim, é flagrante a falsidade do motivo que alegou na SÁBADO para justificar a sua demissão, pois afirmou ter sido impedido de proceder à limpeza anticorrupção da JAE, ainda por cima, por alguém que lhe tinha dado a missão de proceder a essa limpeza.

Em segundo lugar, há que averiguar se. em outra ocasião não associada à sua demissão, teria alguma vez o senhor general apresentado uma lista de funcionários a “correr”.

Se alguma vez foi travado pelo ministro, ou por quem quer que fosse, na limpeza da JAE Se alguma vez o se empenhou no combate imediato à corrupção.

Nunca o senhor general me comunicou fosse o que fosse sobre corrupção na JAE, como reconheceu no seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito. Nunca promoveu por iniciativa própria qualquer ação de identificação de indícios de corrupção e sua investigação. Limitou-se a dar andamento burocrático a dois casos de pequena dimensão.

Em matéria de combate imediato à corrupção o senhor general foi um zero. Não há um só testemunho, um só documento, uma só iniciativa própria que comprove o seu combate frontal imediato à corrupção. Pelo contrário, o que há são provas do seu encobrimento de casos de corrupção de que tomou conhecimento quando era presidente da JAE e se recusou a comunicar, como era seu estrito dever legal, tendo sido posteriormente julgado e condenado em tribunal por isso mesmo. Desonra lhe seja.

Teria o senhor general sido travado na limpeza da JAE? Ele próprio o nega: “Não houve qualquer “travagem” efetiva, ninguém me disse: não faça isso! Foi sim pelo facto de ter saído da Junta, e eu tive o cuidado de dizer que renunciei voluntariamente”, (p. 27).

“Sobre quem me travou, eu já disse que não fui travado por ninguém, foram as circunstâncias que me levaram a que saísse. Não houve ninguém que me dissesse assim: ‘Alto lá, não fazes mais nada porque eu não deixo.’ Não, não foi isso. Eu saí porque entendi que devia sair.” (p. 124) Estas declarações sob juramento à Comissão Parlamentar de Inquérito comprovam a falsidade de alegações como as que constam da entrevista à SÁBADO, em Agosto de 2019: “Fui ao ministro e disse-lhe: ‘Tenho aqui 11 nomes da JAE que têm de ir para a rua…’ Disse-me que não podia ser.” Crápula invenção de um refinadíssimo mentiroso. Nunca houve essa reunião ou outra qualquer similar. Nunca lhe disse “Não faça isso” ou “alto lá, não fazes mais nada porque eu não deixo”.

A questão da lista de 11 funcionários a “correr” da JAE é um sórdido delírio fantasista do senhor general a que vem dando publicidade anos depois da sua saída da JAE. Mas é extremamente sintomático que nunca tenha feito menção deste assunto nem ao procurador-geral da República, nem às Comissões Parlamentares Permanentes, Ia e 4a, nem à Comissão Parlamentar de Inquérito que o ouviram sem limites de tempo por mais de seis horas, no conjunto.

Pura aldrabice do senhor general não comunicada ao procurador-geral da República e ao parlamento.

O jeito que lhe teria dado se tivesse apurado, de facto, uma lista de 11 funcionários da JAE a correr por corrupção. Houvesse lista e o senhor general teria certamente centrado nela a sua denúncia. Não tendo lista, para apresentar qualquer coisa, ele que nada tinha a dizer de concreto, restou-lhe a irracionalidade absurda de invocar confissões de empreiteiros corruptores recusando revelar os seus nomes, o que o levou inevitavelmente à condenação em Tribunal como criminoso.

Nestas condições é preciso ser muito idiota para acreditar nas alegações do senhor general quanto à tal lista.

O problema é que o senhor general trata os portugueses como se fossem idiotas q.b.

O comportamento aberrante do senhor general acabou por lhe infligir consequências muito pesadas.

No plano judicial, do ponto de vista social, ético e moral, a sentença do Tribunal marcou-o indelevelmente com o ignominioso ferrete de criminoso encobridor e protetor de criminosos corruptos e corruptores atuando impunemente no organismo de que era presidente. No plano da apreciação global e final, a Comissão de Inquérito, dificilmente poderia ter usado linguagem parlamentar mais negativa para quem motivara a criação da própria Comissão: “O longo depoimento por ele prestado constitui uma enorme frustração: não revelou factos suscetíveis de integrar o conceito de corrupção; recusou revelar os nomes dos construtores civis que afirmou terem-lhe contado haver financiado partidos políticos; e limitou-se a discorrer sobre generalidades vagas ou a glosar situações de facto entretanto apuradas pela sindicância ordenada pelo ministro do Equipamento.”

O que se concluiu nas grandes instituições nacionais em democracia, parlamento e Tribunais, foi um vergonhoso arraso e enxovalho do comportamento do cidadão general Garcia dos Santos.

No que me diz respeito pessoalmente tenho o dever imperativo de desmentir e opor a verdade dos factos às nojentas falsidades e calúnias que a ignóbil perversão moral do senhor General vem alimentando.

A mentira continuada, a baixeza sem limites, a torpeza abjeta são drogas pesadas que originam a corrupção e a vil deformação da mente. Drogas pesadas que destroem o sentido de responsabilidade e aviltam o caráter de quem nelas se vicia. De qualquer modo, a chafurdice moral e ética em que o senhor general se deleita não mais ficará sem justo corretivo.

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