SMMP - Sindicato dos Magistrados do Ministério Público Os mais poderosos 2020

#50 Carlos Alexandre

FILOMENA LANÇA
ANDRÉ VERÍSSIMO

No início de julho, o juiz decidiu suspender das suas funções os CEO da EDP e EDP Renováveis, António Mexia e Manso Neto, forçando a mudanças na gestão das duas maiores empresas do PSI-20. Tem ainda em mãos os processos Tancos e de Isabel dos Santos.

Para Carlos Alexandre, juiz de serviço no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa (TCIC), os últimos tempos têm sido particularmente agitados e na sua mesa aterraram processos que envolvem, entre outros, um ex-ministro da defesa, Azeredo Lopes, a filha do antigo presidente da Angola, Isabel dos Santos, e os ex-responsáveis da EDP, grupo que, sozinho, vale mais do que o resto do PSI20. São apenas alguns exemplos e, na verdade, nada de novo, considerando o historial de Carlos Alexandre nas últimas quase duas décadas.

Poderoso? Tem o poder judicial, que lhe confere a sua profissão de juiz de direito, mas a esse soma-se o que lhe advém do lugar que ocupa no tribunal por onde passam as principais investigações criminais do país. Aliás, a sua presença entre os mais poderosos não é de agora. Longe disso. O magistrado está no Ticão – como também é conhecido o TCIC – desde 2004 e é um daqueles casos em que a instituição já se confunde com a pessoa que a representa. Foi ele que, em novembro 2014, decidiu colocar em prisão preventiva o ex-primeiro-ministro José Sócrates, e só por isso já ficaria para a história. Foi também ele quem, no ano seguinte, ordenou a prisão domiciliária de Ricardo Salgado, o então ainda “dono disto tudo”, líder do BES, que o juiz mandou a polícia buscar a casa, assim garantindo a sua presença no interrogatório. Nesses anos o seu nome saltou para as notícias, mas estes estão longe de ser os únicos casos que o tomaram famoso.

Se é ao TCIC que vão parai- as grandes investigações, o resultado é que, nos últimos anos em prati-Os casos que lhe caíram no colo, nomeadamente o da EDP, justificam a reentrada de Carlos Alexandre na lista de poderosos do Negócios, na qual marcou presença em 2014 e 2015, aos quentes da Operação Marquês, que então tinha em mãos.

Continuação da pág. 5 camente todas Carlos Alexandre assinou por baixo. Afinal, sendo certo que não é o juiz que dirige as investigações – essas estão nas mãos do Ministério Público, mais exatamente do Departamento Central de Investigação e Ação Penal – é a ele que, além de determinar as medidas de coação, cabe o papel de, por exemplo, emitir mandados de buscas – e até acompanhá-las – ou filtrar as escutas telefónicas realizadas num inquérito. Ou, outro exemplo, determinar a suspensão de um arguido das suas funções habituais se considerar que a sua manutenção pode constituir um perigo para a investigação. Foi o que aconteceu, recentemente, quando decidiu, num despacho de mais de mil páginas, que António Mexia e João Manso Neto não podiam continuar à frente da EDP, porque isso trazia perigos de continuação da atividade criminosa e de perturbação do inquérito.

Um poderoso a mexer com poderosos. Da banca, da política, do mundoempresarial.ACarlos Alexandre, que durante anos foi o único juiz titular do TCIC, essa classificação cola-se naperfeição. Em 2015 foi nomeado para lá um outro magistrado, Ivo Rosa, e Carlos Alexandre perdeu o monopólio dos processos. Porém, olhando para isso em perspetiva, agora não será bem assim. E que Ivo Rosa tem em mãos – calhou-lhe, na sequência de um sorteio eletrónico em 2018 – o mega processo da Operação Marquês e está dedicado a ele em exclusivo. Por causa disso, todos os processos que tinha em mãos passaram para Carlos Alexandre. Umaherança pesada – que incluiu, por exemplo, o caso EDP -, mas que aceitou com toda a normalidade, passando também a ser, na prática, o único magistrado do TCIC disponível para receber novos casos que vão chegando.

Muito trabalho para um homem só? De vez em quando há vozes que se levantam a criticar a escassez de magistrados no Ticão e a inevitável “pessoalização” da função. O próprio presidente do Conselho Superior de Magistratura (CSM) já se referiu a isso e recentemente a Associação Sindical dos Juízes Portugueses anunciou que ia apresentar uma proposta para que a situação seja alterada. O certo, no entanto, é que há quase duas décadas que Carlos Alexandre é a cara do Ticão.

Discreto q.b., o “super juiz”, como ficou conhecido, não se inibe de fazer declarações públicas ou mesmo de dar entrevistas, como tuna em falou sobre o sorteio, aleatório, que o fez perder a Operação Marquês para Ivo Rosa. As suas declarações levaram o CSM a abrir-lhe um processo disciplinar que, no entanto, acabaria arquivado. Quando é preciso, fala e, como j á referiu várias vezes, o medo não o perturba. “Se tivesse medo, não me levantava da cama”, disse uma vez numa entrevista à SIC.

Nascido numa família humilde em Mação, estudou pela Telescola e aj udava o pai nas férias, trabalhando como carteiro e nas obras. Foi bombeiro, é sportinguista assum ido e catól ico devoto. Não frequenta os corredores do poder e também não mantém relações próximas com os atores principais dos mundo político, económico ou atédamagistraturajudicial – já disse de Ivo Rosa, com quem divide o Ticão, que nunca tinira entrado no seu gabinete e nem tinha o seu telefone. Gosta de trabalhar sozinho, mas taco a taco com o Ministério Público, em grande proximidade. E coleciona ódios e admirações. O “Mourinho português”, para uns, o “Garzón português”, para outros, que lhe não perdoam a queda para o protagonismo nrediático que, queira ou não, já se lhe colou.

Se tivesse medo, não me levantava da cama.
Há 13 anos foi-me dito que eu devia meter-me com pessoas do meu tamanho, porque precisava do meu ordenado para sobreviver, para comer.

CARLOS ALEXANDRE

Juiz do TCIC em entrevistas à SIC e RTP, respetivamente
Farei sempre parte da solução da TAP.
Não nacionalizar a TAP é bom para o país e para a companhia.
[Acionistas] vão lutar para que a TAP seja a maior possível e que os cortes sejam o mais reduzidos que se consiga.

HUMBERTO PEDROSA
Presidente do grupo Barraqueiro e acionista da TAP ao Jornal Económico

BILHETE DE IDENTIDADE

• Idade: 59 anos
• Formação académica: Licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
• Cargo: Juiz do Tribunal Central de Investigação Criminal
• Naturalidade: Mação, distrito de Santarém
• Estado civil: Casado

PORQUE REENTRA

Carlos Alexandre foi o magistrado que, no Tribunal Central de Investigação Criminal, deu voz de prisão a José Sócrates em 2014, mantendo-o em prisão preventiva por quase um ano. Foram anos de grande agitação para a justiça e agora, o protagonismo de Carlos Alexandre volta a marcar presença. Desta vez tem em mãos casos como o da EDO – em que ordenou recentemente a suspensão de funções de António Mexia e Manso Neto, ou o de Tancos, no âmbito do qual acaba de ser acusado o ex-ministro da Defesa.

TABELA DE CRITÉRIOS

Poder da fortuna Rede empresarial Influência política Influência mediática Perenidade

REGRESSO INEVITÁVEL

Tem o poder judicial, que lhe confere a profissão de juiz, mas a esse soma-se o qué Ihé advém do lugar que ocupa.

OS MAIS PODEROSOS 2020 #50

CARLOS ALEXANDRE Carlos Alexandre gosta de trabalhar sozinho, mas taco a taco com o Ministério Público, em grande proximidade. E coleciona ódios e admirações.

O ELEVADOR DO PODER

Filomena Lança
filomenalanca@negocios.pt

PRÓXIMO PODEROSO
IVO ROSA

Partilha o Tribunal Central de Instrução Criminal com Carlos Alexandre, mas está agora dedicado em exclusivo ao mega processo da Operação Marquês. Como Carlos Alexandre, é um magistrado controverso, que gera opiniões diversas entre quem com ele se cruza na Justiça. Se há quem o aponta como absolutamente legalista, também há quem lhe atribua demasiada benevolência com os arguidos, assim dificultando a vida ao Ministério Público. Com a Operação Marquês e sua enorme teia em mãos, é um sério candidato a poderoso.

FALSO PODEROSO
FRANCISCO PROENÇA DE CARVALHO

O advogado de Ricardo Salgado está a braços com uma acusação que inclui 65 crimes e, além do próprio ex-dono disto tudo, envolve 17 outros arguidos singulares e 7 empresas. São 4.117 páginas, mais ainda que as da Operação Marquês, a grande referência em matéria de megaprocessos. Francisco Proença de Carvalho, que muitas vezes disse que “a montanha” iria “parir um rato”, terá pela frente uma longa e conturbada defesa para contestar as provas dos crimes de burla, corrupção, falsificação, branqueamento, infidelidade, manipulação de mercado e associação criminosa.

O Negócios faz todos os anos, desde 2010, o retrato do poder económico em Portugal. Em 2020, será já a ll.a edição. A lista elaborada peio Negócios obedece a cinco critérios que são contabilizados todos õs anos.

#49 Humberto Pedrosa

O empresário que entra nos negócios para ficar foi parte da solução para salvar a TAP. Aceitou as condições do Estado para injetar 1.200 milhões na companhia sem contrapartidas e vai manter 22,5% do capital. Foi reconhecido como patriota.

BILHETE DE IDENTIDADE

• Cargo: Presidente do grupo Barraqueiro e acionista (com 22,5%) da TAP, onde é administrador não executivo
• Naturalidade: Nasceu em Asseiceira Pequena, Mafra, em outubro de 1947

OS MAIS PODEROSOS 2020

MARIA JOÃO BABO
mbabo@negocios.pt

ANDRÉ VERÍSSIMO
averissimo@negocios.pt

Humberto Pedrosa assegurou desde a primeira hora em que acriseprovocada pela pandemia se abateu sobre a TAP que seria sempre parte da solução. Assumiu que queria manter-se como acionista quando o Governo ameaçou com a nacionalização da transportadora. Aceitou todas tis condições que o Estado impunha para injetar até 1.200 milhões de euros na companhia sem exigir nada em troca. Fez um acordo de palavra com o Governo. E acabou por ser reconhecido pelo ministro das Infraestruturas como um “empresário patriota”.

Mas, durante as negociações que conduziram à saída de David Neeleman da Atlantic Gateway, que até agora era dona de 45% da TAP, Pedro Nuno Santos nunca distinguiu os dois acionistas privados nas suas críticas, para desgosto de Pedrosa. Pelo contrário, António Costa separou sempre os dois empresários, que se associaram em 2015 para ganharem aprivatização da empresa.

O norte-americano nascido no Brasil, que há cinco anos foi trazido por Fernando Pinto para concorrer à compra da TAP e apresentado pelo Barclays ao dono do grupo Barraqueiro, está agora de saída. Neeleman e a Azul, companhia de é que acionista e “chairman”, recebem 55 milhões de euros pelas participações sociais, direitos económicos e prestações acessórias do grupo. O Estado evita a litigância, reforça para 72,5% e injeta dinheiro na empresa que a pandemia colocou em grandes dificuldades. Humberto Pedrosa continuará a ter 22,5%.

Os dois sócios não se afastam zangados, mas ao longo dos cinco anos que estiveram juntos na TAP tiveram divergências. Humberto

PORQUE REENTRA

Humberto Pedrosa integrou a lista dos Mais Poderosos do Negócios em 2015, ano em que se associou a David Neeleman para ganhar a privatização da TAP. Com um império nos transportes – desde autocarros a comboios, passando por metros ligeiros -, fez este ano parte da solução para a companhia aérea nacional, a viver uma forte crise devido à pandemia. 0 ministro das Infraestruturas chamou-lhe “empresário patriota”. Pedrosa provou que entra nos negócios para ficar.

TABELA DE CRITÉRIOS

Poder da fortuna Rede empresarial Influência política Influência mediática Perenidade

PEDROSA VOLTA À LISTA

Posição na lista dos Mais Poderosos durante todas as edições

Humberto Pedrosa já tinha estado na listados Mais Poderosos. Foi em 2015 quando, com David Neeleman, venceu a privatização da TAP. Volta agora a constar do “ranking” ao ficar o parceiro único do Estado na transportadora.

O negócio que estavà a ser preparado com a Lufthansa iria valorizar a TAP em pelo menos 800 milhões de euros.

OS MAIS PODEROSOS 2020 HUMBERTO PEDROSA

TEIA DE INFLUENCIA

Diogo Horta Osório

É amigo de Humberto Pedrosa e advogado do grupo que o empresário lidera.

António Costa Conhecem-se desde que o atual primeiro-ministro se candidatou à Câmara de Loures, nos anos 90. Dão-se bem e têm amigos em comum. Costa distinguiu sempre os dois acionistas da Atlantic Gateway.

Pedro Nuno Santos

Conseguido o acordo para a saída de Neeleman da TAP, o ministro emendou a mão por antes ,nâo ter distinguido os dois acionistas e considerou Humberto Pedrosa um “empresário patriota”.

Manttel Champalimaud

O acionista dos CTT é um dos amigos pessoais de Humberto Pedrosa.

Jorge Rebelo de Almeida

O presidente do grupo Vila Galé é amigo do empresário, que além do grupo ‘Barraqueiro tem 22,5% da TAP.

Fernando Medina

0 grupo Barraqueiro tem trabalhado bem com o presidente da Área Metropolitana de Lisboa na resposta em termos de oferta de transporte público durante a atual crise.

Luis Filipe Vieira

O presidente do Benfica, clube de que Humberto Pedrosa é adepto, é amigo de longa data do líder do grupo Barraqueiro. 0 mesmo acontece com Manuel Vilarinho, ex-presidente dos “encarnados”.

Bernardo Trindade

O administrador não executivo da TAP também conhece Humberto Pedrosa há muitos anos. Quando era secretário de Estado do Turismo entregou-lhe uma condecoração.

Fernando Pinto Conheceram-se ‘há cinco anos, altura em que o então CEO da TAP puxou David Neeleman para a privatização da companhia aérea.

Humberto Pedrosa diz que esta nos negócios para ficar e que na TAP não seria diferente. Fica agora na companhia com 22,5%.

Miguei Frasqullho

Apesar de se dar bem com todos os administradores da TAP, Humberto Pedrosa já conhecia o atual x “chairman” da TAP desde que ele estava no BES. Esmeralda Dourado É administradora da TAP indicada pelo Estado, mas a boa relação L que tem com Humberto Pedrosa é muito anterior. Há largos anos que os dois empresários se conhecem.

‘David Pedrosa

Os dois filhos de -“‘”Humberto Pedrosa estão em diferentes áreas de negócio. David Pedrosa integra a comissão executiva da TAP e Artur Pedrosa é administrador do grupo Barraqueiro.

José Ramos

É amigo de Humberto Pedrosa. A Salvador Caetano é fornecedora de autocarros há muitos anos para o grupo que Humberto Pedrosa lidera há mais de 50 anos.

Jorge de Abreu

Advogado e amigo pessoal do líder do grupo Barraqueiro. 0 sócio “da Abreu & Marques e Associados é também sócio de Pedrosa numa herdade em Mértola onde produzem vinho.

Jorge Cosmen

É o presidente do grupo espanhol Alsa que, à semelhança da Barraqueiro, é também um grupo familiar e líder no seu país. Além de uma parceria empresarial sâo amigos de longa data.

Jorge Coelho

Humberto Pedrosa é amigo do antigo ministro socialista há muitos anos.

Pedrosa é um empresário e David Neeleman um investidor. Características que levam o primeiro a entrar nos negócios para ficar.

TAP valorizada em 800 milhões

A velocidade a que a TAP cresceu foi motivo de discórdia. Em pouco tempo, a empresa aumentou a frota, as rotas e os trabalhadores, numa estratégia levada acabo pela equipa de Neeleman, que indicou dois dos três elementos da comissão executiva. Apesar de Humberto Pedrosa ter preferido um crescimento mais lento e sustentado, a política determinada pelo norte-americano valorizou, e muito, a TAP. É que se não fosse a pandemia, o negócio que estava a ser preparado com a alemã Lufthansa iria valorizar a transportadora portuguesa em pelo menos 800 milhões de euros, que poderiam até chegar aos mil milhões dependendo do comportamento este ano.

Humberto Pedrosa, que nos negócios nunca quis dar passos maiores do que a perna, considerou excessivo o investimento, que só em 2019 superou os 1.500 milhões.

Além do ritmo dos investimentos, discordaram também das opções comerciais. David Neeleman queria aproximar mais a TAP de uma “low cost”, cortando custos por exemplo com o catering a bordo; Pedrosa defendia a aposta na qualidade do serviço como forma da companhia se diferenciar da concorrência. Foi sempre isso que defendeu para o seu grupo. Se Neeleman chegou à TAP com currículo e experiência no setor da aviação, Pedrosa aprendeu depressa. Há duas décadas também entrou no transporte ferroviário com a Fertagus, que começou do zero (cujo contrato foi estendido até 2024). E com os metros – Sul do Tejo e do Porto – foi a mesma coisa.

A Pedrosa nunca passou pela cabeça ser acionista da TAP. “Até me assustava um pouco em função de algumas ideias preconcebidas: sindicatos difíceis, a grande dimensão da companhia, as greves…”, admitiu numa entrevista. Quando conheceu Neeleman fez-lhe duas ou três perguntas a que o norte-americano respondeu de imediato e acreditou que estava perante o homem certo para salvar a TAP.

Aos 67 anos entusiasmou-se e deixou de ver a transportadora como um bicho de sete cabeças. A sua boa relação de décadas com António Costa ajudou na reversão parcial da privatização em 2016.0 mesmo se passou agora, garantindo-lhe o Governo que terá um papel no futuro da TAP. Humberto Pedrosa não tem dúvidas que o norte-americano fez um bom trabalho, com a parceria com a Azul ou as rotas para os EUA Aos 72 anos, tem os dois filhos – Artur e David – a trabalhar consigo, um na TAP e o outro na Barraqueiro, mas não pensa na sucessão. Orgulha-se de ter pessoas que trabalham consigo há 50 anos e que continuam no grupo. Quase se ofende quando alguém tenciona reformar-se. Tinha 20 anos quando assumiu os destinos da empresa que lhe foi passada pelo pai, e desde então o percurso foi sempre a crescer. Em 2013 foi distinguido como comendador e dois anos depois a revista Exame incluía-o entre os portugueses mais ricos, com uma fortuna avaliada em 301 milhões.

No confinamento ditado pela pandemia refugiou-se na herdade quetemno Alentejo. Mas porpouco tempo. Depressa voltou a Lisboa e ao escritório onde até finais de maio chegou a estar praticamente sozinho, com asecretária. Calmo e reservado, hoje já lida melhor com o mediatismo. Procura consensos e gosta de parcerias nos negócios. Na crise da TAP fez a diferença entre ter havido ou não uma nacionalização.

SMMP - Sindicato dos Magistrados do Ministério Público Lavagem de dinheiro em Portugal duplica em apenas meio ano

– Redes internacionais criam empresas de fachada e abrem contas na hora
– Dinheiro é depois distribuído para Hong Kong, Nigéria e Turquia

Redes usam Portugal para lavar lucros de burlas no estrangeiro

Inês Banha

PJ detetou, desde janeiro, 15 milhões de euros, o dobro de todo o ano de 2019. Organizações criam empresas de fachada. Ministério rejeita relação do “Empresa na Hora” com crimes

Esquema. As redes internacionais dedicadas à prática de burlas informáticas no estrangeiro estão a usar Portugal para, através da criação de empresas de fachada, lavar os lucros obtidos com aqueles crimes. Só desde janeiro, a Polícia Judiciária (PJ) detetou a movimentação, nesse âmbito, de pelo menos 15 milhões de euros -o dobro da quantia intercetada em todo o ano passado. A PJ atribui a preferência das organizações à “facilidade de criação de empresas proporcionada pelo sistema ‘Empresa na Hora’”, mas a ligação é rejeitada pelo Ministério da Justiça.

“O Ministério da Justiça desconhece a relação causal entre o balcão ‘Empresa na Hora’, que existe desde 2005 e não dispensa atopresencial, e o crime organizado”, sublinha, em resposta ao JN, a tutela. O ministério liderado por Francisco Van Dunem lembra, ainda, que o recurso àquele serviço “em nada altera os pressupostos da constituição de sociedades civis ou comerciais reguladas por lei”.

Em funcionamento há 15 anos, o balcão permite criar, numérico momento, sociedades comerciais por quotas, unipessoais por quotas e anónimas. Para tal, basta, no procedimento mais simples, escolher uma firma de uma lista pré-aprovada, entregar, até 15 dias depois da constituição da empresa, a declaração do início de atividade e ter já depositado ou comprometer-se a depositar o capital social.

Será esta “vantagem competitiva de Portugal” de, no mesmo dia, criar uma empresa e abrir contas bancárias que, de acordo com a PJ, será “aproveitada” por associações criminosas da Europa do Leste ou da África subsariana para lavar o dinheiro obtido com burlas informáticas sobre residentes nos Estados Unidos, França e Itália.

ESCRITÓRIOS VIRTUAIS

Na prática, estas redes contratam criminosos para criar empresas de fachada com contas bancárias associadas (ler texto na página ao lado). Estas são depois creditadas com quantias com origem em todo o Mundo e encaminhadas, por sua vez, em parcelas mais pequenas, para territórios como Hong Kong, Nigéria ou Turquia. “As empresas são quase sempre sociedades unipessoais que não têm, após a constituição e abertura das contas, quaisquer atividades”, descreve ao JN a Judiciária, precisando que, geralmente, são sediadas “em escritórios virtuais ou moradas falsas”. Já as contas são abertas em vários bancos, “por norma” uma em cada.

O fenómeno, “com três/quatro anos”, sofreu um “incremento significativo”a partir do primeiro semestre de 2017. Entre janeiro de 2018 e 22 de julho deste ano, foram abertos 252 inquéritos, dos quais resultaram 37 acusações. Ao todo, foram detetados 22,5 milhões de euros. O valor não inclui dados de 2018 e refere-se apenas a investigações abertas nos anos em questão. “O total será certamente maior”, conclui a PJ, que deteve oito indivíduos este ano.

CASOS EM 2020

– Idoso surpreendido
Um homem de 71 anos foi surpreendido pela PJ nas instalações de um banco, em Lisboa, quando tentava, a 5 de junho, fazer um levantamento em numerário. Abrira três empresas com passaportes falsos.

– Quatro detidos
Duas semanas depois, um português e três estrangeiros foram detidos por terem aberto contas onde foram creditados centenas de milhares de euros. Usaram identidades falsas.

– Viviam em Sintra
Quatro residentes em Sintra, com idades entre os 25 e os 30 anos, terão criado duas empresas e aberto sete contas.

Ministério Público

Comunicações por branqueamento aumentaram em 2019

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal do Ministério Público recebeu no ano passado, segundo o relatório anual deste organismo, 7019 comunicações de operações bancárias suspeitas, que originaram a abertura de 326 inquéritos. São mais 1308 denúncias do que em 2018. Ainda assim, o montante global de operações suspensas foi inferior ao de 2018. Enquanto em 2019 foram abrangidos 43,93 milhões de euros, 2,56 milhões de dólares americanos e 560 mil libras esterlinas, no ano anterior tinham sido afetados 156,93 milhões de euros, 106,52 milhões de dólares e 180 mil libras esterlinas.

A rota do dinheiro sujo

1. Redes criminosas constituem-se na Europa do Leste (em especial estados bálticos, Rússia, Roménia ou Polónia) ou na África subsariana (em especial Nigéria, Camarões, Benim, Gana ou Costa do Marfim)

2. Burlas informáticas são praticadas maioritariamente sobre residentes nos Estados Unidos, França e Itália . Organizações criminosas contratam estrangeiros residentes fora de Portugal ou cidadãos portugueses com fragilidades económicas para, recorrendo ao “Empresa na Hora”, abrirem sociedades de fachada e ‘ contas em nome destas em território nacional

3. Organizações criminosas contratam estrangeiros residentes fora de Portugal ou cidadãos portugueses com fragilidades económicas, recorrendo ao “Empresa na Hora”, abrirem sociedades de fachada e contas em nome destas em território nacional

4. Contas bancárias abertas em Portugal são creditadas com transferências que podem vir de qualquer país onde foram cometidas as burlas

5. Dinheiro é dividido em pequenas parcelas e transferido para outras contas nacionais ou no estrangeiro. Turquia, Hong Kong e Nigéria são os destinos mais comuns

BURLAS NO ESTRANGEIRO

– Fraude do CEO
O burlão envia um e-mail a funcionários de uma empresa, fazendo-se passar por um executivo. Na missiva, ordena a transferência de dinheiro para uma conta sua ou o envio de informação fiscal confidencial para um endereço seu. Por se tratar, aparentemente, de uma ordem de um superior, a vítima tem tendência a acatá-la.

– Fraude do mandato
Por telefone, e-mail ou carta, o burlão solicita a uma instituição, em nome de uma empresa, a alteração dos dados de uma conta bancária pertencente a esta. Se tal se concretizar, o autor da fraude passa a poder aceder-lhe e, dessa forma, beneficiar de pagamentos não autorizados.

– Esquema do romance
O burlão cria um perfil falso num site ou aplicação de encontros amorosos ou numa rede social e, após forjar um relacionamento com o alvo, pede que este lhe envie dinheiro. A quantia destina-se, falsamente, a pagar um bilhete de avião, despesas médicas ou dívidas do jogo e quase nunca chega a ser recuperada pela vítima.

– Phishing bancário
A vítima recebe um e-mail ou mensagem de texto, aparentemente do seu banco, com um link. Se clicar no endereço, é encaminhada para um site fraudulento similar ao da instituição. São-lhe então pedidas as credenciais para entrar na sua área de utilizador. Se forem inseridas, o burlão passa a conhecê-las, obtendo, assim, acesso à conta bancária da vítima.