SMMP - Sindicato dos Magistrados do Ministério Público Sindicato insinua que agredida tem doenças”. PSP pondera queixa ao MP

Sindicato insinua que agredida tem doenças”. PSP pondera queixa ao MP

“A PSP não se revê em qualquer conteúdo que deprecie ou sugestione a desconsideração de qualquer pessoa”, diz a PSP Mulher acusa agente de a agredir. Processo está a ser investigado pelo MP da Amadora

Joana Gorjão Henriques

A direcção nacional da PSP afirmou ao PÚBLICO que pondera encaminhar uma queixa para as entidades competentes, nomeadamente o Ministério Público (MP), contra opost que o Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública publicou em defesa do agente acusado de agredir uma mulher na Amadora.

Nesse post, o sindicato escreve: “As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves. Contudo a defesa da cidadã está a começar a ser orquestrada pelo ódiomor [sic] de brancos.”

Partilham também fotos dos arranhões e das mordidas no braço do polícia envolvido nas agressões.

Ao PÚBLICO, a PSP afirmou: “A Polícia de Segurança Pública não se revê em qualquer conteúdo que deprecie ou sugestione a desconsideração de qualquer pessoa, independentemente do motivo.” O gabinete de comunicação esclareceu que o post em causa está “absolutamente incluído” nesta posição.

“Como decorre da lei e dos normativos internos, quaisquer posicionamentos – emposts, tweets, documentos escritos, afirmações públicas individuaisou organizacionais, que não sejam respeitadores de todos os cidadãos enquanto tal, serão encaminhados para as entidades competentes e escrutinados.”

O porta-voz esclareceu que não tem ainda conhecimento sobre se outras entidades já encaminharam a queixa, mas que pondera fazê-lo para entidades como o Ministério Público, para que avalie os “conteúdos racistas e xenófobos”. O PÚBLICO contactou a Procuradoria-Geral da República que não respondeu até ao fecho desta edição. Peixoto Rodrigues, que foi candidato na lista do líder de extrema-direita André Ventura às eleições europeias, lidera o sindicato ao qual pertencem 16 dos 17 polícias da Esquadra de Alfragide que foram a julgamento acusados de racismo e tortura contra seis jovens da Cova da Moura – oito foram condenados por agressão e sequestro. “A publicação é a que está e nada mais. Não tenho nada a comentar”, afirmou ao PÚBLICO.

Sobre a eventual queixa da parte da direcção nacional da PSP diz: “Cada um é que sabe.” Disse também que não conhece o agente em causa.

Peixoto Rodrigues apareceu a falar do Movimento Zero publicamente e é arguido num processo de fraude que lesou o Estado em milhares de euros. Foi alvo de uma pena disciplinar de aposentação compulsiva aplicada pelo Ministério da Administração Interna (MAI) depois de faltar 83 dias sem justificação, em Julho do ano passado. André Ventura também acusou ontem Eduardo Cabrita, no Parlamento, de ficar “absolutamente em silêncio” quando os polícias são agredidos e de vir “imediatamente a terreiro” quando se envolvem em agressões com pessoas de minorias raciais ou étnicas.

Entretanto, o MAI pediu à Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) a abertura de um inquérito para apurar os factos relacionados com a actuação policial neste caso.

Segundo o ministério, a PSP transmitirá à IGAI todos os elementos da averiguação interna que tem estado a realizar. Cláudia Simões foi ouvida na terça-feira pelo Ministério Público da Amadora. A advogada de Cláudia Simões pediu a incorporação neste processo do outro em que é queixosa e aguarda para saber se o polícia será constituído arguido.

Cláudia Simões, de 42 anos, acusou um polícia de a ter agredido no domingo, após uma intervenção em sequência de uma viagem de autocarro. Presente a tribunal na terça-feira por o agente ter, por seu lado, feito queixa dela, Cláudia Simões estava com a cara deformada e lábios com escoriações. É arguida e ficou com termo de identidade e residência. A PSP afirma que a cidadã “se mostrou agressiva” e “mordeu o agente”. A PSP abriu um processo de averiguação interna e irá “apurar se os danos físicos são consentâneos com uma actuação policial correcta ou se aparentam uso excessivo de força”.

A cidadã portuguesa e angolana disse ao PÚBLICO que as agressões pelo mesmo agente da PSP, Carlos Canha, ocorreram em dois momentos. O primeiro terá sido pouco depois das 20h30, na rua. Num vídeo filmado por um jovem vê-se um agente da PSP a manietar a senhora, com as pernas dobradas em cima das suas costas e as mãos a agarrar no cabelo, puxando-o para trás. A voz dela balbucia palavras, mas vê-se o rosto de Cláudia Simões sem marcas ou feridas e uma voz a dizer: “Ela não está a resistir.” Num segundo momento, acusa, o polícia agrediu-a no carro da PSP, com ela algemada, enquanto a insultava: “‘Grita agora sua filha da puta, preta, macacos, vocês são lixo, uma merda’.” Segundo se queixou, a PSP deixou-a inconsciente à porta da esquadra. Segundo disse ao PÚBLICO o comandante dos Bombeiros da Amadora, Mário Conde, os meios foram accionados “como queda”, por iniciativa da esquadra. Cláudia Simões estava fora da esquadra quando lá chegaram, pelas 22h. No local, foi visível que se tratava de outro motivo – os bombeiros referiram que tinha existido um conflito entre a cidadã e a PSP, afirmou.

Segundo contou, tudo se iniciou no autocarro 163, da Vimeca, que faz o percurso Colégio Militar-Massamá. A filha esquecera-se do passe e Cláudia disse ao motorista que o filho estaria na paragem de saída com o documento (os passes de ambas estão em dia, mostraram ao PÚBLICO, mas de qualquer forma até aos 12 anos as crianças não pagam, apenas precisam de ter o documento). Sentaram-se e tudo decorreu normalmente, até que entrou uma senhora brasileira com a neta de quatro anos e o motorista forçou-as a sair por a menina não ter passe. Gerson Calveto, o sobrinho que assistiu a tudo, disse ao PÚBLICO que de seguida o motorista começou a gritar: ‘”isso é na tua terra, vocês estão aqui a dar cabo do nosso país’.

Quando chegaram à paragem de destino o motorista chamou um polícia que os abordou perguntando se queriam agredir o motorista. Houve troca de argumentos e a gota de água terá sido um comentário que Cláudia fez acusando o agente de estar “a cheirar a álcool”, diz Gerson. “O tipo agarrou o pescoço da minha tia e jogou-a ao chão de imediato.”

Segundo o comunicado oficial da PSP, o agente foi chamado pelo motorista e entrou dentro do autocarro pelo facto de a cidadã se recusar a pagar o bilhete de transporte da filha, e de o ter ameaçado e injuriado. Afirma ainda que Cláudia Simões estava “agressiva” e empurrava o agente.