20-12-2018 | Público
Autor: João Miguel Tavares

Se caísse um dente a António Costa e ele pedisse um desejo, no outro dia de manhã acordaria com Rui Rio debaixo da almofada.

Há líderes da oposição que são bons. Há líderes da oposição que são assim-assim. Há líderes da oposição que são maus. E depois há Rui Rio. Transformar a composição do Conselho Superior do Ministério Público no tema político da semana – semana em que, convém recordar, houve greve de enfermeiros, novidades na investigação a Tancos, a queda de um helicóptero do INEM e a revisão em baixa do crescimento económico português – é tão idiota, mas tão idiota, que a idiotice se torna insultuosa. Eis um caso de flagrante delito: Rui Rio está a assassinar o PSD à frente do país.

Acham que exagero? Não exagero, não. Quando um partido como o PSD perde completamente as estribeiras por causa de um comentário televisivo de Luís Marques Mendes (aquele em que disse que Rio e Sócrates eram “irmãos siameses” nas propostas para controlar a Justiça – faltandolhe apenas acrescentar que foi ele próprio quem deu a mão a Sócrates em 2006 para aprovar o Pacto da Justiça de então), está tudo dito sobre a equipa de Rui Rio e a confiança com que ela desempenha as suas funções.

O supostamente “cerebral” e “alemão” líder do PSD, não só tem vindo a destruir o maior legado do partido nos últimos anos apoiaro combate à corrupção durante o mandato de Joana Marques Vidal – como acaba de ultrapassar o PS no seu desejo de impor um controlo político sobre o Ministério Público.

No momento em que os portugueses estão satisfeitos com o trabalho do Ministério Público; no momento em que Armando Vara se prepara para finalmente cumprir pena de prisão efectiva por tráfico de influências; nas vésperas de José Sócrates saber se vai ou não a julgamento; Rui Rio conclui que é a altura ideal para politizar o órgão disciplinar do Ministério Público, abrindo uma guerra com o sindicato dos magistrados e com a própria PGR.

Uma guerra – note-se – que não era dele e que nem sequer pode ganhar, na medida em que o PS, que no início apoiou a ideia, saltou fora do comboio. Ficou Rui Rio, a fazer o papel de cavaleiro solitário das causas indecentes.

Entre quinta e terça-feira, o seu Twitter oficial compunhase de quatro tuítes a atirar-se ao Ministério Público, mais cinco retuítes de Paulo Mota Pinto a defender a posição de Rui Rio acerca do Conselho Superior do Ministério Público, entremeado por um único tuíte sobre a tragédia de Valongo, e que vale a pena citar: “A minha homenagem às vítimas da queda do helicóptero do INEM, e os meus sentimentos aos seus familiares e amigos.

Não será justo, nem prudente, se não se apurarem todas as responsabilidades pelo eventual atraso na assistência após o desastre.” Para além do português de Rui Rio se ter despenhado juntamente com o helicóptero, é absolutamente espantoso que estas duas pobres frases sejam tudo aquilo que o líder da oposição tem a dizer sobre mais um falhanço clamoroso do Estado na assistência aos seus cidadãos.

De facto, o que é que interessa o 112, a NAV e a Protecção Civil comparados com a recomposição do Conselho Superior do Ministério Público?

Salvador Malheiro escreveu (no Twitter, claro): “Ao comparar Rui Rio a Sócrates, Luís Marques Mendes foi longe demais! Que vergonha! O Luís Marques Mendes perdeu toda a credibilidade junto dos portugueses.” Não, não.

Quem perdeu toda a credibilidade junto dos portugueses foi Rui Rio. Como o PSD vai comprovar amargamente nas eleições de 2019.