Justiça imperfeita

No regime do Estado Novo cada reforma legislativa era cuidadosamente preparada e, por vezes, demorava vários anos a concretizar-se.

Em momento anterior ao da aprovação dos principais diplomas eram solicitadas as opiniões dos principais Professores de Direito da especialidade e havia um amplo debate e reflexão.

Antes das normas entrarem em vigor era efectuada uma cuidada correcção, para que o texto legislativo ficasse perfeito.

A elaboração do Código Civil é um dos marcos desses tempos e perdura passados 60 anos desde a sua publicação.

Durante a ditadura não existia a preocupação com os ciclos eleitorais ou em concretizar uma obra antes do Governo cessar funções.

Como não havia pressão com o tempo, pois o Governo era tendencialmente perpétuo, podia apostar-se na qualidade da legislação.

Como o pensamento era único, as políticas legislativas também tinham sempre um fio condutor.
Esse paradigma há muito que acabou, felizmente (porque acabou a Ditadura e existe pluralismo) e infelizmente (porquanto a qualidade legislativa desceu substancialmente)..

Hoje em dia legisla-se “à flor da pele”. Caso ocorra um problema hoje, logo amanhã se anuncia uma alteração legislativa para o corrigir.

As iniciativas legislativas actuais são formas de captar e mobilizar o eleitorado.

As reformas e contra-reformas são constantes.

Os Governos muitas vezes seguem uma linha de actuação completamente oposta à dos seus antecessores, o que faz com que as políticas públicas não tenham um rumo certo.

Quem tem filhos sabe bem que os programas e métodos escolares mudam frequentemente, ao sabor das diferentes ideologias que estão no Governo, lançando a confusão entre pais e alunos.

A legislação é elaborada constantemente e sem preocupações sistemáticas.

Os Códigos Penal e Processual Penal têm sido alterados praticamente todos os anos.

No final das legislaturas, alguma legislação relevante tem sido aprovada sem qualquer discussão, porque interessa que surja uma nova lei antes do Governo cessar funções.

A aprovação de leis avulsas e contraditórias entre si, bem como a falta de articulação de alguns diplomas, dão origem a dúvidas interpretativas, incerteza jurídica e aumento dos litígios.

As normas que regem o sistema de justiça também não fogem a este padrão.

Antes de se efectuar a reforma da Organização do Sistema Judiciário ( ocorrida em Setembro de 2014), concluiu-se que o sistema de Justiça teria de ser regido pela conjugação harmoniosa de três tipos de diplomas, isto é, Lei de Organização do Sistema Judiciário, estatutos das magistraturas e regulamento da Lei de Organização do Sistema Judiciário.

Já decorreram cerca de dois anos e ainda não foi efectuada a necessária compatibilização legislativa, o que tem provocado as maiores confusões.

Na magistratura do Ministério Público subsistem as dúvidas sobre qual a estrutura hierárquica vigente e qual o conteúdo funcional de cada magistrado.

Imaginem que numa empresa os trabalhadores não sabiam a quem deveriam reportar e quais as suas funções em concreto. Como é que uma empresa poderá subsistir com este tipo de organização?
Os estatutos das magistraturas ainda não foram revistos (deveriam ter sido revistos em 2014) e foi apresentada recentemente uma nova proposta, pelo Ministério da Justiça, para rever a Lei de Organização do Sistema Judiciário (LOSJ).

Novamente pretende-se efectuar alterações avulsas e sem uma perspectiva de conjunto, pois não se alterarão globalmente todos os diplomas que têm conexões entre si.

Esta circunstância implica que se terão de efectuar sucessivas alterações à LOSJ nos próximos anos.
Mais uma vez predomina a lógica da política em detrimento da técnica legislativa, pois é necessário apresentar medidas o mais rapidamente possível, destinadas a satisfazer os eleitores.

 

Autor: António Ventinhas é presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público

Sábado, 24/06/2016


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